
No picadeiro da vida.
Aconteceu ser palhaço...
Menino, bem cedo abandonado à má sorte da orfandade, acompanhou um circo.
Conviveu com essa gente que, perambulando, ganha o seu pão de cada dia. Com muito esforço, com muito prazer e com muita vontade de vencer, aprendeu dominar a difícil arte de divertir as platéias, fazendo-as rir, gargalhar e aplaudir.
Cresceu neste mundo artístico e alegre. Tornou-se moço, amando a vida e o palco circense.
Um dia constituiu família. Amava a gentil esposa, adorava a delicada filha. Sentia-se bastante seguro no picadeiro e no lar. Num recebia os aplausos do povo; no outro, os carinhos dos seus.
Mas os momentos de felicidade nem sempre duram... E, de repente, um dia a doença veio bater em sua casa. A esposa adoeceu e toda tentativa para curá-la foi em vão.
Quanta tristeza onde antes abrigara tanta felicidade. Tem a um lado a esposa já sem vida, tem no colo a filhinha com o rosto em lágrimas, soluçando.
A dor incomoda, a dor devora, mas não se lamenta e nem chora para não agravar ainda mais o estado da filha que febril se acama.
Passados os tensos dias, novas manhãs ressurgem. As pessoas retornam ao trabalho. A vida continua. E à noite buscam diversão no circo.
O espetáculo precisa do palhaço. É ele que faz rir.
E ei-lo de novo no seu camarim, dando os últimos retoques no rosto para transformar-se na figura mais alegre da noite.
Adentra o picadeiro ao som da charanga. Arranca chuvas de risos, eletrizantes aplausos, contagiantes gargalhadas... E quanto mais aquela gente ri e aplaude, mais seu coração se constrange na lembrança dos dias felizes em que pudera contar com a esposa ainda viva, cantarolando pela casa modesta e a filhinha sadia ao colo.
Mas a vida é um show... E o espetáculo deve continuar.
(N. Rogero-caderno de redação: com o saudoso prof.Benedito de Andrade)









